Há dias em que a alma mais parece uma montanha-russa: quer falar, mas não sabe dizer. Quer doer, mas desfarça com um sorriso. Quer sorrir, mas se enche de dor. Pensa em seguir, mas continua parada. Se concorda, descorda logo após. Respira, mas quer me tomar o ar. Explode de loucura e depois se desculpa. Quer recomeçar, mas não quer aceitar o fim. Se voa pelo céu, quer estar presa ao chão. Quer a verdade, mas ao encarar a realidade, prefere mil vezes a cegueira indolor. Se vai adiante, pensa que era melhor ter ficado parada. Se esquece, pensa que era mehor ter guardado na memória (e quando guarda, gostaria de ter esquecido).
Nem posso dizer que é porque segue o ciclo da lua, pois nem este é capaz de acompanhar seu ritmo. Seu ciclo é próprio, e vai seguindo em outros corpos quando já não posso aguentar tamanha indecisão.
sábado, 22 de agosto de 2009
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Tem que ser por inteiro
Não existe
meio rio,
meio córrego,
meia cachoeira,
meio oceano,
meio ar,
meio céu,
meio chão,
meia raiz,
meio mato,
meia árvore,
meio pássaro,
meio peixe,
meio bicho,
meio ser humano.
E meio ambiente, existe?
(anúncio da Vale do Rio Doce)
Não há mais o que dizer. Isso basta.
meio rio,
meio córrego,
meia cachoeira,
meio oceano,
meio ar,
meio céu,
meio chão,
meia raiz,
meio mato,
meia árvore,
meio pássaro,
meio peixe,
meio bicho,
meio ser humano.
E meio ambiente, existe?
(anúncio da Vale do Rio Doce)
Não há mais o que dizer. Isso basta.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
On the edge
RaulRodrigues says:
você tem que saber seus limites
RaulRodrigues says:
e respeita-los
andrezza. says:
danem-se os limites heueh
você tem que saber seus limites
RaulRodrigues says:
e respeita-los
andrezza. says:
danem-se os limites heueh
domingo, 16 de agosto de 2009
Auto-sabotagem

Primeiro, vem aquela vontade de praticar o impraticável. Depois, a votade vira decisão. Então, você escolhe o alvo e atira. Dói. Você gostaria de ter pensado duas vezes antes. O alvo faz falta. Mas você queria, não queria?
ps. Quem disse que o tempo é um santo remédio, nunca descobriu a verdadeira cura. E quem inventou o otimismo era pessimista.
ps2. Esse post não precisa necessariamente fazer sentido.
ps3. Rir pra não chorar é a lei.
Tchau.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Sobre entregar-se
― Dá-me um destino e somente então seguirei em paz! ― assim supliquei.
― Mas que destino posso lhe dar? Achas que sou Deus ou que sei do futuro? Apenas tome seus remédios. ― disse-me Dr. Gerardo.
― Mas preciso de um destino! Estou presa sobre esta cama e não sei quando finalmente poderei sair. Deves ter ao menos uma ideia, por menor que seja! Diga-me: tenho eu alguma chance de sair daqui? ― insisti.
― Claro que tens, ora essa. Não estás tomando os remédios?
― Sim, estou, mas não vejo progresso algum. Preciso de sinceridade! Sairei ou não desta cama?
Um longo silêncio tomou conta do quarto. Um silêncio assustador, que falava mais do que palavras. Eu já sabia a resposta. Pensei em como aproveitar meus últimos dias de vida, mas logo desisti. Não havia como aproveitar. Então pensei em todos os momentos bons que tinham me passado, mas não me traziam felicidade (nem a resposta para a imortalidade).
Me vi sem saída. Mas não falo da saída da vida, aquela que leva à morte, pois esta estava logo a minha frente. Falo da saída da dor. Essa sim, não se apresentava. Procurava e procurava, mas apenas me apareciam os remédios, que não a remediavam, porque não era dor qualquer, e sim uma dor que ia mais além e machucava muito mais do que as dores da doença. Era a dor da falta de presente, passado ou futuro. O presente era o nada em que eu me encontrava, o futuro era o nada póstumo desconhecido, e o passado, o nada não vivido.
Pensei em tudo o que teria feito se conhecesse meu fim e em tudo o que poderia ser, mas me interrompi. Nunca fui de me lastimar, tampouco de viver do passado. Era evidente que aquela não era eu. Onde estava o meu verdadeiro eu?
Era uma pergunta difícil demais para se fazer em tal momento. Então, minha atenção voltou-se para um pedacinho de pele saindo do canto do dedo mindinho esquerdo, que fiz questão de arrancar. E arrancando-o, pensei:
― Bom mesmo seria se tudo quanto há de mais doloroso na vida pudesse ser arrancado como um pedacinho de pele. Então poderíamos viver em paz. Meu eu viveria em paz.
Que meu eu não estava em paz, agora era mais do que óbvio. Talvez justamente isso o tivesse feito desaparecer sem deixar rastros. E eu? Como poderia achá-lo entre tantos pensamentos que me invadiam a cama durante o dia e adormeciam ao meu lado durante a noite? Talvez essa fosse uma chance para descobrir um outro, novo eu. Um que tivesse mais esperança, que se permitisse sentir. O antigo, entre os afazeres da vida, nunca se permitiu lastimar. Mas isso não quer dizer que não o sentisse. O sentia, sim. Apenas não se dava ao luxo de dar tanta atenção para um sentimento que não cumprisse os tais afazeres. E não só havia vontade de lastimar, como também havia vontade de amar, de sorrir, de ter algum tempo livre e de viver. Mas cada um dos sentimentos fora ignorado. Quer dizer, ignorado, não. Nem sequer foram notados. Apenas seguia deixando que a vida o carregasse, enquanto focava-se em cumprir obrigações.
― E agora? ― pensei com ar de quem já sabia a resposta, afundando na cama como quem desiste de resistir aos fatos, pois nem o presidente, Deus, ou qualquer outra excelência e santidade, poderiam me devolver o tempo que desperdicei. E se agora anseio pela chegada do último suspiro, não passa de falta de coragem de enfrentar minha consciência. Tudo porque em algum momento, eu me perdi.
― Mas que destino posso lhe dar? Achas que sou Deus ou que sei do futuro? Apenas tome seus remédios. ― disse-me Dr. Gerardo.
― Mas preciso de um destino! Estou presa sobre esta cama e não sei quando finalmente poderei sair. Deves ter ao menos uma ideia, por menor que seja! Diga-me: tenho eu alguma chance de sair daqui? ― insisti.
― Claro que tens, ora essa. Não estás tomando os remédios?
― Sim, estou, mas não vejo progresso algum. Preciso de sinceridade! Sairei ou não desta cama?
Um longo silêncio tomou conta do quarto. Um silêncio assustador, que falava mais do que palavras. Eu já sabia a resposta. Pensei em como aproveitar meus últimos dias de vida, mas logo desisti. Não havia como aproveitar. Então pensei em todos os momentos bons que tinham me passado, mas não me traziam felicidade (nem a resposta para a imortalidade).
Me vi sem saída. Mas não falo da saída da vida, aquela que leva à morte, pois esta estava logo a minha frente. Falo da saída da dor. Essa sim, não se apresentava. Procurava e procurava, mas apenas me apareciam os remédios, que não a remediavam, porque não era dor qualquer, e sim uma dor que ia mais além e machucava muito mais do que as dores da doença. Era a dor da falta de presente, passado ou futuro. O presente era o nada em que eu me encontrava, o futuro era o nada póstumo desconhecido, e o passado, o nada não vivido.
Pensei em tudo o que teria feito se conhecesse meu fim e em tudo o que poderia ser, mas me interrompi. Nunca fui de me lastimar, tampouco de viver do passado. Era evidente que aquela não era eu. Onde estava o meu verdadeiro eu?
Era uma pergunta difícil demais para se fazer em tal momento. Então, minha atenção voltou-se para um pedacinho de pele saindo do canto do dedo mindinho esquerdo, que fiz questão de arrancar. E arrancando-o, pensei:
― Bom mesmo seria se tudo quanto há de mais doloroso na vida pudesse ser arrancado como um pedacinho de pele. Então poderíamos viver em paz. Meu eu viveria em paz.
Que meu eu não estava em paz, agora era mais do que óbvio. Talvez justamente isso o tivesse feito desaparecer sem deixar rastros. E eu? Como poderia achá-lo entre tantos pensamentos que me invadiam a cama durante o dia e adormeciam ao meu lado durante a noite? Talvez essa fosse uma chance para descobrir um outro, novo eu. Um que tivesse mais esperança, que se permitisse sentir. O antigo, entre os afazeres da vida, nunca se permitiu lastimar. Mas isso não quer dizer que não o sentisse. O sentia, sim. Apenas não se dava ao luxo de dar tanta atenção para um sentimento que não cumprisse os tais afazeres. E não só havia vontade de lastimar, como também havia vontade de amar, de sorrir, de ter algum tempo livre e de viver. Mas cada um dos sentimentos fora ignorado. Quer dizer, ignorado, não. Nem sequer foram notados. Apenas seguia deixando que a vida o carregasse, enquanto focava-se em cumprir obrigações.
― E agora? ― pensei com ar de quem já sabia a resposta, afundando na cama como quem desiste de resistir aos fatos, pois nem o presidente, Deus, ou qualquer outra excelência e santidade, poderiam me devolver o tempo que desperdicei. E se agora anseio pela chegada do último suspiro, não passa de falta de coragem de enfrentar minha consciência. Tudo porque em algum momento, eu me perdi.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Amor inconsciente
Já era cedo da manhã, mas tarde para dormir. Eu havia o observado adormecer ao meu lado e esqueci de o fazer também. Não só ele, mas também os primeiros raios de sol que rompiam a escuridão; a cama, que ficava mais bonita quando ocupada por dois, e não somente um; e por fim, toda a bagunça que agora ocupava o quarto, que sempre o acompanhava: as roupas largadas no chão, móveis fora do lugar e eu, a maior de toda a bagunça.
Era daqueles sérios, inteligentes, que sempre proporcionavam conversas agradáveis e, mesmo após tanta prosa, ainda mantinha seu ar enigmático. Tinha olhos pequenos, nariz que parecia ter sido feito à mão e lábios também pequeninos. Era alto ― até demais ―, nem de aparência magricela, nem forte. Sua pele era branca e sua voz, grossa. Mas a atenção com que se dirigia às pessoas a tornava menos severa. Me fazia sentir pequena. Aliás, minúscula. Ao seu lado, eu era insignificante e frágil: era capaz de esquecer toda a confiança que um dia possuí.
Esse era um daqueles momentos em que eu o observava com muita concentração, imaginava seus possíveis sonhos e me afogava no mar que é tentar desvendar uma mente cheia de segredos. A concentração deu lugar à hipnose, e eu logo me vi longe dali, em uma outra atmosfera, fora de meu corpo. Talvez com muito esforço, tivesse me transportado para a sua mente, mas eu não poderia saber, pois logo voltei a mim:
― Bom dia. ― ele disse com um breve sorriso, rompendo o silêncio e meu sonho.
― Bom dia. ― respondi, feliz por lhe ver acordado, mas triste por me ter feito voltar.
― O que faz aí com essa cara de boba? E por que está acordada tão cedo? Não dormiu?
― Nada. Só sonhando acordada. E não, não dormi. Por que essa preocupação com o horário em que durmo? Por acaso planejava sair sem se despedir?
Gostaria de ter dito que pusera-me a contemplá-lo, mas meu orgulho não era capaz de ceder. Acabei dando um resposta seca e fria. Eu, como sempre, tentando me mostrar forte. Mas eu sabia que era a mais fraca de nós dois ― e ele também já sabia, imagino.
― Claro que não, não diga besteiras. Eu não faria isso. Eu não sei ser assim. Mas de fato, está na hora de eu ir. Acho que já fiquei tempo demais.
"Está na hora de eu ir", repeti pra mim mesma a fim de que pudesse analisar se ele realmente havia dito que estava indo embora. É, ele estava, e doía ter de ouvi-lo poferir tais palavras. Não era capaz de ver que em meu interior, suplicava pela sua companhia?
Suas visitas eram sempre breves, mas deixavam danos irreparáveis. Sua entrega nunca era total. Pelo contrário, ele nunca parecia estar ali, apesar de seu corpo estar presente. Eu que me encarregava de sofrer as dores de me aprisionar tão facilmente, enquanto ele seguia sendo filho do vento.
Subitamente me bateu uma vontade de lhe dizer tudo o que sempre quis dizer, desde o momento em que me vi apaixonada. Mas foi um desejo que pude controlar. Eu sabia que se dissesse que o amava, o perderia para sempre. Não havia algo que amasse mais do que sua liberdade, disso eu tinha certeza. Era a única certeza que eu tinha sobre ele.
― Então vá. ― respondi amargamente.
― O que há com você hoje? Não lembro de ter-lhe feito mal algum. Muito pelo contrário, só lembro de ter-lhe feito o bem! Tanta amargura assim, não entendo. Não após ontem.
― Agora é você quem diz besteiras. Claro que não me fez mal algum. Na maior parte do tempo, você só me faz o bem... ― logo me calei após perceber que realmente havia dito besteiras.
― Como "na maior parte do tempo"? Quer dizer, então, que já lhe fiz sofrer? ― indagou, com ar de surpresa.
― Esqueça o que eu disse. Não estava na hora de você ir embora? ― retorqui asperamente.
― Não. Agora é hora de ficar e ouvir tudo o que tem a me dizer. ― ele disse, agora atencioso.
Toda essa atenção quase me fez sucumbir. Era a minha deixa para falar. Ele pedia. Todas as palavras estavam na ponta de minha língua:
― Eu preciso de um banho. Você pode ir embora enquanto isso.
O oposto do que eu queria dizer saiu de minha boca. Eu realmente queria dizer aquelas palavras, mas o medo não foi capaz de me deixar fazê-lo. Se eu o perdesse, toda a dor que eu havia sentido não teria motivo. Seria amar em vão. Seria me machucar mais.
― Está bem, então. Se não quer dizer, vou embora e não insistirei. Melhor ir andando antes que me ponha para fora. Mas antes, preciso dizer que sua atitude me machuca. Eu não consigo entender. Pensei que tivesse feito a coisa certa ontem à noite, mas pelo visto não a fiz. Se não quiser mais me ver, é mais fácil ser direta. Desse jeito, ambos estaremos apenas perdendo tempo.
― Como ousa dizer que lhe machuca? Você não sabe o que é a dor. Como sempre, só pensando em você. Não faço a menor ideia do que se passava pela minha cabeça quando pensei que sofrer em silêncio seria bom. Você não merece tamanho sacrifício. ― eu até poderia aguentar a dor de guardar tamanho sentimento, mas não poderia aguentar a dor de ouvi-lo dizer que tudo era apenas perda de tempo.
― Acho que não entendi...
― Então deixe-me esclarecer as coisas antes que eu passe mal com mais uma palavra sua. "Dor" nem sequer pode designar o que sinto. Vai mais além, bem mais. Acredite. Não me venha com essa conversa de que lhe machuco. Você nem mesmo se importa comigo. Vem como um furação e me leva tudo. Depois, ainda tem a coragem de voltar. Eu não aguento mais. Você age como se me amasse, se porta como quem ama. Mas ao final, se vai, e passam-se meses e meses sem que eu tenha ao menos um telefonema seu. Então, como num passe de mágica, me aparece na porta de novo. Eu lhe recebo de braços abertos. Você me ama de novo e depois, se vai (e novo!). Eu espero que ao menos agora, você possa ir de uma vez por todas.
― Eu não sei o que dizer. Na verdade, não há o que ser dito. A não ser que você já era para ter me dito isso antes, e que você me conhece. Não há o que fazer. Eu não posso mudar, é parte de mim. Mas saiba que quando digo que me machuca, estou sendo sincero. Entre todos esse anos, pude criar um apreço por você. Quando você me diz para ir embora, realmente dói. Só por que sua dor é maior, não quer dizer que a minha simplesmente não exista.
― Mas como dizer? Você ainda não percebeu que eu te amo? Que o imaginar saindo por essa porta para nunca mais voltar, me parte o coração? Eu caio em lágrimas! Eu penso que é o fim do mundo e prefiro a morte!
― Por quê? Por que se entregar assim? Não vale a pena. Você acabaria se cansando de mim. Era o que costumava me acontecer. Se não o faço também, é puro mecanismo de proteção. Você gosta de mim porque não pode me ter. Se pudesse, faria exatamente o que as outras fizeram.
― Mas que mentira!
― De modo algum. Você não me conhece tão bem assim, conhece? Não pode dizer se seria diferente do que estou dizendo. Já eu, posso dizer com convicção. Eu sei de minha alma.
Nesse momento, parei para refletir sobre tais palavras. Não, eu de fato não o conheço como gostaria. Mas não foi por falta de vontade. Foi pelo seu medo. ― e aqui, sim, pude perceber que ele tinha tanto medo quanto eu. De repente, eu já não era mais a criatura minúscula de antes.
― Que culpa tenho eu? ― respondi com ar de desistência. Já não suportava mais.
― Nenhuma.
― Então deixe como está. Melhor pararmos por aqui, pois essa conversa não nos levará a lugar algum.
Sim, eu havia desistido. Sua palavras ecoavam em minha cabeça. Será mesmo que o coração poderia ser capaz de me enganar de tal jeito? Nada daquilo era amor? Todo o sofrimento havia sido apenas uma ilusão? Pior: havia tudo aquilo sido apenas um jogo, uma caça ao seus pensamentos? Talvez eu nunca saiba. A única coisa da qual tenho certeza após aquele momento, é de que ele foi embora. E então, pus-me a perguntar se amamos não a pessoa e si, mas sim os sonhos que fabricamos sobre ela.
Era daqueles sérios, inteligentes, que sempre proporcionavam conversas agradáveis e, mesmo após tanta prosa, ainda mantinha seu ar enigmático. Tinha olhos pequenos, nariz que parecia ter sido feito à mão e lábios também pequeninos. Era alto ― até demais ―, nem de aparência magricela, nem forte. Sua pele era branca e sua voz, grossa. Mas a atenção com que se dirigia às pessoas a tornava menos severa. Me fazia sentir pequena. Aliás, minúscula. Ao seu lado, eu era insignificante e frágil: era capaz de esquecer toda a confiança que um dia possuí.
Esse era um daqueles momentos em que eu o observava com muita concentração, imaginava seus possíveis sonhos e me afogava no mar que é tentar desvendar uma mente cheia de segredos. A concentração deu lugar à hipnose, e eu logo me vi longe dali, em uma outra atmosfera, fora de meu corpo. Talvez com muito esforço, tivesse me transportado para a sua mente, mas eu não poderia saber, pois logo voltei a mim:
― Bom dia. ― ele disse com um breve sorriso, rompendo o silêncio e meu sonho.
― Bom dia. ― respondi, feliz por lhe ver acordado, mas triste por me ter feito voltar.
― O que faz aí com essa cara de boba? E por que está acordada tão cedo? Não dormiu?
― Nada. Só sonhando acordada. E não, não dormi. Por que essa preocupação com o horário em que durmo? Por acaso planejava sair sem se despedir?
Gostaria de ter dito que pusera-me a contemplá-lo, mas meu orgulho não era capaz de ceder. Acabei dando um resposta seca e fria. Eu, como sempre, tentando me mostrar forte. Mas eu sabia que era a mais fraca de nós dois ― e ele também já sabia, imagino.
― Claro que não, não diga besteiras. Eu não faria isso. Eu não sei ser assim. Mas de fato, está na hora de eu ir. Acho que já fiquei tempo demais.
"Está na hora de eu ir", repeti pra mim mesma a fim de que pudesse analisar se ele realmente havia dito que estava indo embora. É, ele estava, e doía ter de ouvi-lo poferir tais palavras. Não era capaz de ver que em meu interior, suplicava pela sua companhia?
Suas visitas eram sempre breves, mas deixavam danos irreparáveis. Sua entrega nunca era total. Pelo contrário, ele nunca parecia estar ali, apesar de seu corpo estar presente. Eu que me encarregava de sofrer as dores de me aprisionar tão facilmente, enquanto ele seguia sendo filho do vento.
Subitamente me bateu uma vontade de lhe dizer tudo o que sempre quis dizer, desde o momento em que me vi apaixonada. Mas foi um desejo que pude controlar. Eu sabia que se dissesse que o amava, o perderia para sempre. Não havia algo que amasse mais do que sua liberdade, disso eu tinha certeza. Era a única certeza que eu tinha sobre ele.
― Então vá. ― respondi amargamente.
― O que há com você hoje? Não lembro de ter-lhe feito mal algum. Muito pelo contrário, só lembro de ter-lhe feito o bem! Tanta amargura assim, não entendo. Não após ontem.
― Agora é você quem diz besteiras. Claro que não me fez mal algum. Na maior parte do tempo, você só me faz o bem... ― logo me calei após perceber que realmente havia dito besteiras.
― Como "na maior parte do tempo"? Quer dizer, então, que já lhe fiz sofrer? ― indagou, com ar de surpresa.
― Esqueça o que eu disse. Não estava na hora de você ir embora? ― retorqui asperamente.
― Não. Agora é hora de ficar e ouvir tudo o que tem a me dizer. ― ele disse, agora atencioso.
Toda essa atenção quase me fez sucumbir. Era a minha deixa para falar. Ele pedia. Todas as palavras estavam na ponta de minha língua:
― Eu preciso de um banho. Você pode ir embora enquanto isso.
O oposto do que eu queria dizer saiu de minha boca. Eu realmente queria dizer aquelas palavras, mas o medo não foi capaz de me deixar fazê-lo. Se eu o perdesse, toda a dor que eu havia sentido não teria motivo. Seria amar em vão. Seria me machucar mais.
― Está bem, então. Se não quer dizer, vou embora e não insistirei. Melhor ir andando antes que me ponha para fora. Mas antes, preciso dizer que sua atitude me machuca. Eu não consigo entender. Pensei que tivesse feito a coisa certa ontem à noite, mas pelo visto não a fiz. Se não quiser mais me ver, é mais fácil ser direta. Desse jeito, ambos estaremos apenas perdendo tempo.
― Como ousa dizer que lhe machuca? Você não sabe o que é a dor. Como sempre, só pensando em você. Não faço a menor ideia do que se passava pela minha cabeça quando pensei que sofrer em silêncio seria bom. Você não merece tamanho sacrifício. ― eu até poderia aguentar a dor de guardar tamanho sentimento, mas não poderia aguentar a dor de ouvi-lo dizer que tudo era apenas perda de tempo.
― Acho que não entendi...
― Então deixe-me esclarecer as coisas antes que eu passe mal com mais uma palavra sua. "Dor" nem sequer pode designar o que sinto. Vai mais além, bem mais. Acredite. Não me venha com essa conversa de que lhe machuco. Você nem mesmo se importa comigo. Vem como um furação e me leva tudo. Depois, ainda tem a coragem de voltar. Eu não aguento mais. Você age como se me amasse, se porta como quem ama. Mas ao final, se vai, e passam-se meses e meses sem que eu tenha ao menos um telefonema seu. Então, como num passe de mágica, me aparece na porta de novo. Eu lhe recebo de braços abertos. Você me ama de novo e depois, se vai (e novo!). Eu espero que ao menos agora, você possa ir de uma vez por todas.
― Eu não sei o que dizer. Na verdade, não há o que ser dito. A não ser que você já era para ter me dito isso antes, e que você me conhece. Não há o que fazer. Eu não posso mudar, é parte de mim. Mas saiba que quando digo que me machuca, estou sendo sincero. Entre todos esse anos, pude criar um apreço por você. Quando você me diz para ir embora, realmente dói. Só por que sua dor é maior, não quer dizer que a minha simplesmente não exista.
― Mas como dizer? Você ainda não percebeu que eu te amo? Que o imaginar saindo por essa porta para nunca mais voltar, me parte o coração? Eu caio em lágrimas! Eu penso que é o fim do mundo e prefiro a morte!
― Por quê? Por que se entregar assim? Não vale a pena. Você acabaria se cansando de mim. Era o que costumava me acontecer. Se não o faço também, é puro mecanismo de proteção. Você gosta de mim porque não pode me ter. Se pudesse, faria exatamente o que as outras fizeram.
― Mas que mentira!
― De modo algum. Você não me conhece tão bem assim, conhece? Não pode dizer se seria diferente do que estou dizendo. Já eu, posso dizer com convicção. Eu sei de minha alma.
Nesse momento, parei para refletir sobre tais palavras. Não, eu de fato não o conheço como gostaria. Mas não foi por falta de vontade. Foi pelo seu medo. ― e aqui, sim, pude perceber que ele tinha tanto medo quanto eu. De repente, eu já não era mais a criatura minúscula de antes.
― Que culpa tenho eu? ― respondi com ar de desistência. Já não suportava mais.
― Nenhuma.
― Então deixe como está. Melhor pararmos por aqui, pois essa conversa não nos levará a lugar algum.
Sim, eu havia desistido. Sua palavras ecoavam em minha cabeça. Será mesmo que o coração poderia ser capaz de me enganar de tal jeito? Nada daquilo era amor? Todo o sofrimento havia sido apenas uma ilusão? Pior: havia tudo aquilo sido apenas um jogo, uma caça ao seus pensamentos? Talvez eu nunca saiba. A única coisa da qual tenho certeza após aquele momento, é de que ele foi embora. E então, pus-me a perguntar se amamos não a pessoa e si, mas sim os sonhos que fabricamos sobre ela.
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