segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Amor inconsciente

Já era cedo da manhã, mas tarde para dormir. Eu havia o observado adormecer ao meu lado e esqueci de o fazer também. Não só ele, mas também os primeiros raios de sol que rompiam a escuridão; a cama, que ficava mais bonita quando ocupada por dois, e não somente um; e por fim, toda a bagunça que agora ocupava o quarto, que sempre o acompanhava: as roupas largadas no chão, móveis fora do lugar e eu, a maior de toda a bagunça.
Era daqueles sérios, inteligentes, que sempre proporcionavam conversas agradáveis e, mesmo após tanta prosa, ainda mantinha seu ar enigmático. Tinha olhos pequenos, nariz que parecia ter sido feito à mão e lábios também pequeninos. Era alto ― até demais ―, nem de aparência magricela, nem forte. Sua pele era branca e sua voz, grossa. Mas a atenção com que se dirigia às pessoas a tornava menos severa. Me fazia sentir pequena. Aliás, minúscula. Ao seu lado, eu era insignificante e frágil: era capaz de esquecer toda a confiança que um dia possuí.
Esse era um daqueles momentos em que eu o observava com muita concentração, imaginava seus possíveis sonhos e me afogava no mar que é tentar desvendar uma mente cheia de segredos. A concentração deu lugar à hipnose, e eu logo me vi longe dali, em uma outra atmosfera, fora de meu corpo. Talvez com muito esforço, tivesse me transportado para a sua mente, mas eu não poderia saber, pois logo voltei a mim:
― Bom dia. ― ele disse com um breve sorriso, rompendo o silêncio e meu sonho.
― Bom dia. ― respondi, feliz por lhe ver acordado, mas triste por me ter feito voltar.
― O que faz aí com essa cara de boba? E por que está acordada tão cedo? Não dormiu?
― Nada. Só sonhando acordada. E não, não dormi. Por que essa preocupação com o horário em que durmo? Por acaso planejava sair sem se despedir?
Gostaria de ter dito que pusera-me a contemplá-lo, mas meu orgulho não era capaz de ceder. Acabei dando um resposta seca e fria. Eu, como sempre, tentando me mostrar forte. Mas eu sabia que era a mais fraca de nós dois ― e ele também já sabia, imagino.
― Claro que não, não diga besteiras. Eu não faria isso. Eu não sei ser assim. Mas de fato, está na hora de eu ir. Acho que já fiquei tempo demais.
"Está na hora de eu ir", repeti pra mim mesma a fim de que pudesse analisar se ele realmente havia dito que estava indo embora. É, ele estava, e doía ter de ouvi-lo poferir tais palavras. Não era capaz de ver que em meu interior, suplicava pela sua companhia?
Suas visitas eram sempre breves, mas deixavam danos irreparáveis. Sua entrega nunca era total. Pelo contrário, ele nunca parecia estar ali, apesar de seu corpo estar presente. Eu que me encarregava de sofrer as dores de me aprisionar tão facilmente, enquanto ele seguia sendo filho do vento.
Subitamente me bateu uma vontade de lhe dizer tudo o que sempre quis dizer, desde o momento em que me vi apaixonada. Mas foi um desejo que pude controlar. Eu sabia que se dissesse que o amava, o perderia para sempre. Não havia algo que amasse mais do que sua liberdade, disso eu tinha certeza. Era a única certeza que eu tinha sobre ele.

― Então vá. ― respondi amargamente.
― O que há com você hoje? Não lembro de ter-lhe feito mal algum. Muito pelo contrário, só lembro de ter-lhe feito o bem! Tanta amargura assim, não entendo. Não após ontem.
― Agora é você quem diz besteiras. Claro que não me fez mal algum. Na maior parte do tempo, você só me faz o bem... ― logo me calei após perceber que realmente havia dito besteiras.
― Como "na maior parte do tempo"? Quer dizer, então, que já lhe fiz sofrer? ― indagou, com ar de surpresa.
― Esqueça o que eu disse. Não estava na hora de você ir embora? ― retorqui asperamente.
― Não. Agora é hora de ficar e ouvir tudo o que tem a me dizer. ― ele disse, agora atencioso.
Toda essa atenção quase me fez sucumbir. Era a minha deixa para falar. Ele pedia. Todas as palavras estavam na ponta de minha língua:
― Eu preciso de um banho. Você pode ir embora enquanto isso.
O oposto do que eu queria dizer saiu de minha boca. Eu realmente queria dizer aquelas palavras, mas o medo não foi capaz de me deixar fazê-lo. Se eu o perdesse, toda a dor que eu havia sentido não teria motivo. Seria amar em vão. Seria me machucar mais.
― Está bem, então. Se não quer dizer, vou embora e não insistirei. Melhor ir andando antes que me ponha para fora. Mas antes, preciso dizer que sua atitude me machuca. Eu não consigo entender. Pensei que tivesse feito a coisa certa ontem à noite, mas pelo visto não a fiz. Se não quiser mais me ver, é mais fácil ser direta. Desse jeito, ambos estaremos apenas perdendo tempo.
― Como ousa dizer que lhe machuca? Você não sabe o que é a dor. Como sempre, só pensando em você. Não faço a menor ideia do que se passava pela minha cabeça quando pensei que sofrer em silêncio seria bom. Você não merece tamanho sacrifício. ― eu até poderia aguentar a dor de guardar tamanho sentimento, mas não poderia aguentar a dor de ouvi-lo dizer que tudo era apenas perda de tempo.
― Acho que não entendi...
― Então deixe-me esclarecer as coisas antes que eu passe mal com mais uma palavra sua. "Dor" nem sequer pode designar o que sinto. Vai mais além, bem mais. Acredite. Não me venha com essa conversa de que lhe machuco. Você nem mesmo se importa comigo. Vem como um furação e me leva tudo. Depois, ainda tem a coragem de voltar. Eu não aguento mais. Você age como se me amasse, se porta como quem ama. Mas ao final, se vai, e passam-se meses e meses sem que eu tenha ao menos um telefonema seu. Então, como num passe de mágica, me aparece na porta de novo. Eu lhe recebo de braços abertos. Você me ama de novo e depois, se vai (e novo!). Eu espero que ao menos agora, você possa ir de uma vez por todas.
― Eu não sei o que dizer. Na verdade, não há o que ser dito. A não ser que você já era para ter me dito isso antes, e que você me conhece. Não há o que fazer. Eu não posso mudar, é parte de mim. Mas saiba que quando digo que me machuca, estou sendo sincero. Entre todos esse anos, pude criar um apreço por você. Quando você me diz para ir embora, realmente dói. Só por que sua dor é maior, não quer dizer que a minha simplesmente não exista.
― Mas como dizer? Você ainda não percebeu que eu te amo? Que o imaginar saindo por essa porta para nunca mais voltar, me parte o coração? Eu caio em lágrimas! Eu penso que é o fim do mundo e prefiro a morte!
― Por quê? Por que se entregar assim? Não vale a pena. Você acabaria se cansando de mim. Era o que costumava me acontecer. Se não o faço também, é puro mecanismo de proteção. Você gosta de mim porque não pode me ter. Se pudesse, faria exatamente o que as outras fizeram.
― Mas que mentira!
― De modo algum. Você não me conhece tão bem assim, conhece? Não pode dizer se seria diferente do que estou dizendo. Já eu, posso dizer com convicção. Eu sei de minha alma.
Nesse momento, parei para refletir sobre tais palavras. Não, eu de fato não o conheço como gostaria. Mas não foi por falta de vontade. Foi pelo seu medo.
e aqui, sim, pude perceber que ele tinha tanto medo quanto eu. De repente, eu já não era mais a criatura minúscula de antes.
― Que culpa tenho eu? ― respondi com ar de desistência. Já não suportava mais.
― Nenhuma.
― Então deixe como está. Melhor pararmos por aqui, pois essa conversa não nos levará a lugar algum.
Sim, eu havia desistido. Sua palavras ecoavam em minha cabeça. Será mesmo que o coração poderia ser capaz de me enganar de tal jeito? Nada daquilo era amor? Todo o sofrimento havia sido apenas uma ilusão? Pior: havia tudo aquilo sido apenas um jogo, uma caça ao seus pensamentos? Talvez eu nunca saiba. A única coisa da qual tenho certeza após aquele momento, é de que ele foi embora. E então, pus-me a perguntar se amamos não a pessoa e si, mas sim os sonhos que fabricamos sobre ela.

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