sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Sobre entregar-se

― Dá-me um destino e somente então seguirei em paz! ― assim supliquei.
― Mas que destino posso lhe dar? Achas que sou Deus ou que sei do futuro? Apenas tome seus remédios. disse-me Dr. Gerardo.
― Mas preciso de um destino! Estou presa sobre esta cama e não sei quando finalmente poderei sair. Deves ter ao menos uma ideia, por menor que seja! Diga-me: tenho eu alguma chance de sair daqui? ― insisti.
― Claro que tens, ora essa. Não estás tomando os remédios?
― Sim, estou, mas não vejo progresso algum. Preciso de sinceridade! Sairei ou não desta cama?
Um longo silêncio tomou conta do quarto. Um silêncio assustador, que falava mais do que palavras. Eu já sabia a resposta. Pensei em como aproveitar meus últimos dias de vida, mas logo desisti. Não havia como aproveitar. Então pensei em todos os momentos bons que tinham me passado, mas não me traziam felicidade (nem a resposta para a imortalidade).
Me vi sem saída. Mas não falo da saída da vida, aquela que leva à morte, pois esta estava logo a minha frente. Falo da saída da dor. Essa sim, não se apresentava. Procurava e procurava, mas apenas me apareciam os remédios, que não a remediavam, porque não era dor qualquer, e sim uma dor que ia mais além e machucava muito mais do que as dores da doença. Era a dor da falta de presente, passado ou futuro. O presente era o nada em que eu me encontrava, o futuro era o nada póstumo desconhecido, e o passado, o nada não vivido.

Pensei em tudo o que teria feito se conhecesse meu fim e em tudo o que poderia ser, mas me interrompi. Nunca fui de me lastimar, tampouco de viver do passado. Era evidente que aquela não era eu. Onde estava o meu verdadeiro eu?
Era uma pergunta difícil demais para se fazer em tal momento. Então, minha atenção voltou-se para um pedacinho de pele saindo do canto do dedo mindinho esquerdo, que fiz questão de arrancar. E arrancando-o, pensei:
Bom mesmo seria se tudo quanto há de mais doloroso na vida pudesse ser arrancado como um pedacinho de pele. Então poderíamos viver em paz. Meu eu viveria em paz.
Que meu eu não estava em paz, agora era mais do que óbvio. Talvez justamente isso o tivesse feito desaparecer sem deixar rastros. E eu? Como poderia achá-lo entre tantos pensamentos que me invadiam a cama durante o dia e adormeciam ao meu lado durante a noite? Talvez essa fosse uma chance para descobrir um outro, novo eu. Um que tivesse mais esperança, que se permitisse sentir. O antigo, entre os afazeres da vida, nunca se permitiu lastimar. Mas isso não quer dizer que não o sentisse. O sentia, sim. Apenas não se dava ao luxo de dar tanta atenção para um sentimento que não cumprisse os tais afazeres. E não só havia vontade de lastimar, como também havia vontade de amar, de sorrir, de ter algum tempo livre e de viver. Mas cada um dos sentimentos fora ignorado. Quer dizer, ignorado, não. Nem sequer foram notados. Apenas seguia deixando que a vida o carregasse, enquanto focava-se em cumprir obrigações.
E agora? pensei com ar de quem já sabia a resposta, afundando na cama como quem desiste de resistir aos fatos, pois nem o presidente, Deus, ou qualquer outra excelência e santidade, poderiam me devolver o tempo que desperdicei. E se agora anseio pela chegada do último suspiro, não passa de falta de coragem de enfrentar minha consciência. Tudo porque em algum momento, eu me perdi.

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