Quem dita a hora de dar fim ao meio, senão eu mesmo? Vou-me embora e não faltam-me motivos para o fazer. Meu coração parece gritar quando penso em continuar. Então desde já, despeço-me. E não pense que não sei reconhecer o bem que me fazes: na verdade, me dói deixá-la assim, mas parte de mim ― e falo da maior parte de mim ―, quer voar. Saiba: esta terra já não é sólida o suficiente para manter-me sobre os pés. Procurarei outros cantos, rostos, ares.
Quando leres, Rosinha, o coração lhe arrancará o ar, eu sei. Mas lembre-se de que o coração me arranca o ar sempre que sinto que não estou no lugar certo. Tente entender e será melhor assim. Entenda, esqueça, ache agluém melhor que eu e case-se novamente. Faça de conta que morri, se quiser, mas não me impeça. Não vá atrás de mim. E para ter certeza de que não irás, quando receber esta carta, já estarei longe. Não lhe digo o quão longe, tampouco meu paradeiro, pois sei que assim, irias me procurar.
Não existe outro motivo para minha fuga, senão o sentimento que me invade a alma e me diz para fugir. E não há outra mulher que não seja você em minha vida, Rosinha, lembre-se disto. Sinto que devo-lhe explicações, mas nem eu as conheço, afinal, não passa de desejo, e desejo não se contesta, se realiza. Levo comigo todos os meus pertences, para que não tenhas lembranças de mim. Levo também a ansiedade de começar de novo, mas não porque sou egoísta, e sim porque gosto demais de ti e não continuarei a lhe enganar.
Seu, Cravo.
terça-feira, 1 de setembro de 2009
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